Série americana que retrata os anos 60 é fotografia do homem de sempre

O que pode transformar um episódio de 40 minutos (em média) em algo que te faça pensar, refletir, sorrir, se emocionar e alterar a rotina massacrante do seu dia? Que poder é este que inunda o coração de quem assiste uma série, torna-se escravo dela e acaba tornando-se refém de circunstâncias que ela pode viver, como ser cancelada, mudar de canal, alterar o produtor, mudança brusca de roteiristas e etc?
Acabo de assistir – tardiamente – a quinta temporada de Mad Men e fui surpreendido pelo décimo segundo episódio (em um total de treze), me emocionando por um óbito que ocorria na ficção, que veio da mente coerente e decente de um diretor, na qual a decência é um termo bastante adequado para alguém que criou personagens como Lane Price (o indicado ao Emmy Jarde Harris), contador frio, sotaque inglês (ora porque é inglês!) e com uma vida na qual equilíbrio não é um eufemismo. Pois justamente este, uma temporada e meia depois, comete um suicídio, tolo, cruel, besta e me fez pensar na vida real e suas drásticas consequências.
E por que este escriba caiu no choro como se fosse verdade?
Porque o que faz a gente parar a vida da gente na frente da tela de tv, parando a nossa vida de verdade, é um pouco mais de verdade para nossa vida “de verdade”. Mesmo que sejamos estrangulados pelos noticiários dos jornais televisivos, não conseguimos por muito tempo conviver com as mentiras da vida real. Neste imenso paradoxo de mão e contra-mão, toda a verdade, por mais impressionante que seja, é bem melhor que toda mentira real.
Mad Men reúne a dura realidade de gente que tem dinheiro, ambições, bom gosto, uma profissão e todos os problemas que temos diariamente. No distante ano de 1967. Lá, mesmo com os ternos em alto corte, a protocolar educação às damas e a arrogância de ser os Estados Unidos da América (embora isso seja, reconheço, pouco citado), encontramos pessoas com exatamente os mesmos problemas que temos hoje na era do Iphone, do Google, do delivery, do self-service, da overdose de informação. Pouco mudamos. Corrijo: nada mudamos.
E o que ainda nos faz rir são as coisas simples exploradas pelo criador da série, Matthew Weiner (foto ao lado), um gênio da retórica e do discurso corporativo, que captou (sabe-se lá de onde) o universo empresarial como pouco se viu em uma série de TV. Lá temos a ética (ou a falta dela), a discriminação entre as classes, a luta por um lugar ao sol e o concorrido lugar da sombra, as armas legítimas da luta social e os fantasmas da trapaça no escritório, enfim, encontramos nos episódios um pedaço de todos nós.
Seria bastante complicado falar de cada personagem porque cada um deles possui uma riqueza da veracidade tão próxima do nosso suor, que poderia sim ser tese do estudo do homem, uma teoria antropológica, ao menos do comportamento do homem em um período da sua história. Mais uma vez me corrijo: ainda me enxergo como um espelho mais de 40 anos depois das mesmas pessoas ali retratadas.
Não há uma obrigação ao final de cada temporada que as tensões sejam resolvidas para satisfação do público e nos privilegie com uma sensação de bem estar de que “tudo irá se encaminhar”. Sabem por quê? Porque mesmo os mais otimistas nesta vida não podem garantir com todas as letras que tudo dará certo e este total desprendimento de manipular a ficção de ficção tornam a série apaixonante, mesmo a dureza e áspera realidade por trás de cada cena, fala, atuação e silêncio.
Sim. O silêncio é um dos personagens de Mad Men e eu diria, um dos principais. A lacuna do pensamento dá uma pequena brecha para que a audiência se interponha entre as faces e divague sobre aqueles sentimentos ali estabelecidos e são muitos. Olhar de Donald Draper (Jon Hamm), o sorriso de Joan Harris (Christina Hendricks) e os passos charmosos de Roger Sterling (John Slattery) são tão fundamentais em cena quanto seus diálogos, pois em cada trejeito ou sinal facial estão as marcas de DNA de cada personagem, lhes dando singular postura diante do próprio universo criado por Weiner.
É uma pena que possivelmente ela está mais perto do fim do que antes. A vida é morosa e dinâmica ao mesmo tempo e em pouco mais de 10 episódios as histórias se consolidam mas cultivam a mesma luz do início, ou seja, pouca coisa se definirá daqui por diante porque ela é tão bem contada, que poderia apagar as luzes do estúdio a qualquer momento sem que uma linha estivesse saindo do tecido.
Ainda não é o fim. Pra você e pra mim. Corra e descubra Mad Men. A série que conta sobre a gente sem que nós estejamos lá.

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