
Esse cachorro não tem nada a ver com a série.
Atenção: Esse cachorro não tem nada a ver com a série.
Objetivo do Baú das Séries de hoje: Desvendar um enigma tão grande que 90% das pessoas que assistiram seu piloto acabaram não entendendo.
Definir Terriers é um exercício tão supérfluo que acabamos nos apaixonando pela série quando ficamos diante das aventuras dos seus personagens justamente por seu sucesso ter sido tão misterioso. A premissa desse pequeno diamante do canal FX, que o exibiu para os seus pequenos apreciadores em 2010, é a de dois cidadãos que estão com as vidas tão lascadas que têm que abrir uma “empresa” de investigação privada ilegal.
Como pode ser observado, Terriers foi vendida para o público americano de uma maneira tão simples que as pessoas acabaram deixando essa série fantástica de lado. Como estavam enganados os cidadãos que julgaram a série como nada mais que um procedural após o primeiro episódio*, conceito que é usado tão erroneamente que faz quase nenhum sentido atualmente. Terriers atingiu um nível de tensão sensacional de maneira tão rápida que tornou-se algo assustador. Foi menos complicado para Battlestar Galactica criar episódios claustrofóbicos como “33” por possuir uma trama recheada de naves espaciais e robôs caçando a humanidade, assim como Lost e a história de sobreviventes em uma ilha. Terriers não possui nada disso, mas foi capaz de chegar nesse pedestal antes mesmo da metade de sua temporada.
* Piloto que até mesmo os fãs da série não gostam muito, mas que eu, particularmente, considero ótimo.
Shawn Ryan e seu grupo de roteiristas, que inclui o subestimado Tim Minear e os irmãos Griffin, brincaram com o coração de seu pequeno público de uma forma que poucos conseguem em 13 episódios**. Eles fizeram um trabalho sensacional em conseguir com que todas as situações sempre voltassem para o centro da série, a amizade de Hank e Britt***, os diálogos mostravam como aqueles dois podiam ser engraçados juntos, podiam matar um ao outro de raiva a qualquer momento, mas, o principal: possuíam a capacidade de exibir o quanto aquela dupla precisava de seus integrantes, um princípio de roteiros que quando utilizado de maneira adequada gera cenas absurdas de boas como a última dessa série, uma simples decisão de seguir por um dos caminhos que a vida oferece, além de ser um reflexo perfeito do público, que provavelmente estava rezando para que aquele sinal não mudasse e pudéssemos ficar ali, acompanhados apenas por uma troca de olhar que fala tanto que poderíamos pegá-la e colocá-la abaixo desse parágrafo para encerrar o texto.
** Firefly é a única série com semelhantes números de episódios (desconsidere a diferença de um) que consegue criar um elo tão gigante tanto dentro (entre os personagens) como fora (entre esses personagens e os telespectadores) de seu universo no mesmo nível que Terriers.
*** Donal Logue e Michael Raymond-James são sensacionais na série. É interessante observar como ambos vão mudando à medida que a temporada passa, sendo que, inicialmente, Hank e Britt estão perdidos, mas são capazes de conviver com aquilo. Com o passar do tempo, o fundo do poço fica tão extenso que é quase impossível ver um sorriso em seus rostos quando estão separados.
A maneira escolhida para que a série desenvolva a comunidade de Ocean Beach como um universo perfeito para aquelas pessoas colabora bastante para o funcionamento da mesma. É mágico o jeito que é utilizado para seguir de um acontecimento para outro, um senso de continuidade trabalhado de modo esplêndido pela montagem, pois toda ação tem sua consequência de forma quase instantânea ao mesmo tempo em que uma teoria de conspiração envolvendo toda a comunidade está sendo desenvolvida. Ufa! Ah, eu falei que um deles possui uma ex-mulher e é alcoólatra e o outro é um ex-criminoso que faz de tudo por sua esposa? Imagine tudo isso sendo se desenrolando em um único episódio que ainda tem coragem de explicar como os dois protagonistas se conheceram… “Sins of Past”
Tudo isso cria senso de imprevisibilidade. Passamos por cenas simples onde aprendemos sobre o caso da semana, outras dentro do carro com algum comentário desconfortável e hilário, sequências de ação claustrofóbicas, decisões pessoais ruins tomadas por parte dos protagonistas… E a melhor parte é que funciona! Em uma temporada, Terriers é capaz de utilizar seus personagens como marionetes, jogando-os em infernos pessoais e situações que eles não queriam estar. O problema é que Hank e Britt simplesmente são incapazes de convencer as pessoas que eles estão tentando contornar seus problemas, pois a série sempre acaba os lascando sem piedade, o que talvez faça com que eles sejam perfeitos um para o outro. Reza uma lenda que roteirista bom é aquele que odeia seus personagens. Pura verdade.
E é assim que tudo se desdobra até que chega a um ponto em que paramos para pensar e percebemos como é divertido estar lá com essas pessoas perturbadas enquanto eles juntam pistas para solucionar mistérios, chutam as bundas dos bandidos, esquecem-se da linha que separa o certo do errado e tem seus relacionamentos destruídos por causa disso. Muitos os definem como anti-heróis, mas esse é outro conceito tão usado que prefiro não decifrá-los de maneira tão recatada, eles são mais como adoráveis perdedores com vidas terríveis, porém, com um sentimento grande de defender o certo e o errado que os levam a se sacrificarem até demais por histórias que não deveriam ser de suas contas.
Cometo o erro de tentar definir Terriers, mas, se me perguntassem, minha resposta seria que ela é um fenômeno de 13 episódios que abrigam a ávida ideia de multiplicar diversas temáticas a cada um deles e atravessar os limites do seu gênero, nunca se contentando em permanecer numa zona de conforto que serviria como consolação. Existe outra definição mais simples: uma série que conseguiu atingir níveis extraordinários utilizando acordes tão sutis que fizeram com que ela passasse despercebida. Quase nunca fico arrasado por um cancelamento, mas me entristece pensar como Terriers nos abandonou cedo demais.
Ok, ok… Para que não falem que superestimo a série: ela possui o pior título da história das séries.
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