Baú das Séries: Frasier

Uma daquelas séries que prova como é fácil fazer boa televisão.
Quando iniciou em 1993, o principal obstáculo que Frasier tinha que superar caso ela quisesse mostrar que não seria apenas mais um spin off era saber lidar com um personagem que tinha sido utilizado em outra série por mais de nove temporadas*. Frasier Crane precisava de um novo início. Para cumprir isso, Frasier mostrou de sua primeira cena até a última ser uma série justamente sobre recomeços, tanto é que essa é a mensagem principal do seu piloto e do Series Finale, uma rima sensacional que faz com que ambos sejam episódios sublimes. Esse recado moral da série é de tão fácil identificação que, eventualmente, o público passa a se ver naqueles personagens. O que fez a jornada ainda mais divertida foi observar como cada um daqueles personagens procurava estar em um local diferente daquele em que eles estavam, o que adicionou certo tempero especial para as situações da série, pois a cada episódio que se passava, os personagens percebiam cada vez mais que precisavam conviver com suas diferenças, uma premissa de comédia que Frasier conseguiu explorar de maneira excelente ao longo de suas inúmeras temporadas.
* Momento de parar para pensar: Frasier Crane esteve conosco por praticamente 20 temporadas televisivas.
Vários elementos da série permitiram que ela ficasse no ar por tanto tempo. O contraste da elegância e da simplicidade, por exemplo, é a essência cômica da série, os irmãos Crane, considerados intelectuais e ambiciosos por reconhecimento social, constantemente são pegos de surpresa por algo diferente do seu status quo, o que faz com que eles se tornem adoráveis perdedores ao invés de pessoas arrogantes. Martin e Daphne aparecem justamente como essa novidade que traz o melhor dos irmãos, desenvolvendo certo relacionamento profundo ainda mesmo nos primeiros episódios da série, permitindo que Frasier estabeleça seus personagens de forma tão rápida que antes mesmo do fim da primeira temporada estamos rindo de quando eles tendem a agir diferente diante de determinada situação. Essa mentalidade proporciona momentos sublimes de comédia, onde vemos aquelas pessoas tendo que sacrificar suas personalidades (sem se transformarem em rasas caricaturas, lógico) para alcançar seus objetivos.
Mas Frasier não se resume a isso. Um dos maiores trunfos da série foi sua capacidade de criar situações variadas, dando a oportunidade de serem mostradas diferentes facetas daquelas pessoas. Vemos o lado egoísta, inteligente, galanteador, perdedor e vários outros de Frasier Crane e dos outros personagens. Essa atitude comum de séries de longa duração se torna mais interessante quando falamos de Frasier, pois a série trata de inúmeros assuntos utilizando uma ótica especial que provavelmente nunca foi imitada em outra série. Cada uma dessas diferentes vertentes é observada pelos próprios personagens graças ao seu conhecimento da mente humana, o que faz com que momentos irrelevantes tornem-se discussões hilárias sobre problemas maternos ou medo de intimidade. Mesmo não sendo necessariamente revolucionária nos quesitos das situações cômicas (Seinfeld já fez esse papel, proporcionando material para ser “copiado” pelas séries até o fim do século), Frasier traz uma visão diferente de inúmeras situações consideradas clichês, inspirando diálogos que, na maioria das vezes, são excelentes e têm como ponto forte sua capacidade de transmitir os sentimentos de um personagem por outro mesmo o segundo lado não estando por perto. Quem aqui não odeia a Maris mesmo ela sendo uma personagem invisível?
É importante notar como Frasier sempre foi capaz de completar suas intenções, não importando quais sejam elas. A série queria mostrar Frasier e Niles** não conseguindo trabalhar juntos? Objetivo completo. Queria provar que os dois eram capazes de se unir quando a situação se tornasse desesperadora? Objetivo completo. A versatilidade da série também é visível nos diferentes tipos de humor que ela explora (amizades com colegas de trabalho, relacionamentos, análises malucas da mente humana, etc…), considerando sempre a dificuldade de convivência como meio para manter todos juntos e tirar risadas a partir disso.
** Kelsey Grammer e David Hyde Pierce compõem uma das melhores duplas de atores da história. A facilidade do primeiro em expressar emoções a partir de seu comportamento facial e a comodidade do segundo em fazer a mesma coisa com tiques e inquietações corporais se completam de forma absurda. Jane Leeves e John Mahoney também são sensacionais por motivos diferentes, a primeira ao saber utilizar seu sotaque britânico da maneira mais apropriada para tal situação, sempre transmitindo a doçura de sua personagem até em seus momentos raivosos, e o segundo por saber alternar quando deve utilizar seu semblante de carrancudo ou não.
Frasier também possui o meu shipper favorito das séries. O trabalho dos roteiristas para fazer com que Daphne e Niles não se transformassem em um arco saturado é algo para ser cultuado. É interessante observar como a história nunca aparece tediosa mesmo andando em círculos durante tanto tempo. Tantos e tantos momentos embaraçosos foram criados até o momento decisivo, que chegou apenas no final da sétima temporada, mas possuiu seu auge em um dos melhores episódios produzidos pela televisão.
E foi assim que a série moldou seu universo em Seattle, que é um dos elementos fundamentais de Frasier, um espaço que merece ser visitado até mesmo após o saturamento da série, algo comum em todas as séries de longa duração, e que se destaca por trazer devaneios primorosos a já conhecidas situações.
Good night, Seattle, we love you.

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